sexta-feira, 28 de Julho de 2017

 


Ministro da Saúde vai substituir administração do Hospital de Faro






A administração do Centro Hospitalar do Algarve (CHA) está de saída. "Provavelmente não vou continuar", admitiu o presidente do CHA, Pedro Nunes, - o ex-bastonário da Ordem dos Médicos que desde há quatro anos manda no hospital de Faro. "É normal e legítimo que o Governo queira dar uma nova orientação", justificou. Nos últimos dois anos, desde as eleições autárquicas - quando o PS conquistou a maioria das câmaras na região - subiram de tom as críticas à gestão hospitalar. "Não digam que fui eu que destruí o Serviço Nacional de Saúde (SNS)", diz, rejeitando críticas que o apontam como sendo o principal responsável pelo desmantelamento do sector público de saúde na região.

A falta de médicos especialistas continua a ser a principal lacuna nos hospitais de Faro e Portimão. Quem chega de novo para trabalhar no Algarve, admite Pedro Nunes, "na primeira oportunidade, faz as malas e parte". Por outro lado, quando são abertos concursos para preencher vagas, muitas das vezes ficam desertos. Do ponto de vista turístico, a região é atractiva, mas para além disso tem pouco para oferecer a quem tem hábitos cosmopolitas. Para dar a volta à situação, o gestor público repete a proposta que fez ao ex-ministro Paulo Macedo: "Criação de incentivos financeiros, garantias de promoção na carreira clínica - ou obrigar os médicos a saírem dos grandes centros".

A directora do Curso de Medicina da Universidade do Algarve (Ualg), Isabel Palmeirim, também é da opinião que a região é periférica, e não apenas em relação a Lisboa. "O conceito que Portugal tem do Algarve é de um local de férias". As pessoas, sublinha, "não querem vir para cá viver". A académica, nascida em Lisboa, causou surpresa na Universidade do Minho - onde esteve oito anos - quando disse que se ia mudar para Faro. "Parecia que estava a anunciar que ia para Marrocos", recorda. Depois, mais tarde, ainda foi confrontada com a clássica pergunta: "E que tal, como foi adaptação?" Ao que respondia que, ao fim e ao cabo, do Minho ao Algarve não é mais do que o "dobrar da esquina", quando se tem o mundo como referência. "As pessoas estão pouco habituadas a mudar", conclui.

Ambiente de "zanga" no hospital O curso de Medicina da Ualg, criado há seis anos, já ganhou reconhecimento oficial e público, mas ainda está longe de superar as carências hospitalares. Do grupo dos primeiros 29 médicos formados, com especialidade feita, sete emigraram para a Alemanha, Suíça e Inglaterra e apenas 11 ficaram na região.

"Estudar onde é bom viver", diz o slogan da Ualg para atrair estudantes. Porém, quando chega a altura de fazer opções profissionais, os jovens recém-formados partem para outras paragens. Isabel Palmeirim diz que os alunos saem "preparados para partir à descoberta de outras experiências pelo mundo fora", mas também entende que a "Universidade tem um compromisso para com a região" no que diz respeito à formação de quadros. Sobre a escassez de recursos humanos, destaca - além do facto de ser uma região periférica - o ambiente de "zanga" no meio hospitalar. "Tenho tido médicos que querem vir para cá fazer ensino e clínica, mas não vêm porque estão zangados com o que se passa aqui, clinicamente, no hospital".

As camas alinhadas pelos corredores da Urgência do hospital de Faro foi uma das imagens que, durante muitos anos, ilustrou a incapacidade do serviço público de saúde de responder à crescente procura dos utentes. Pedro Nunes gaba-se de ter acabado com isso. "As pessoas já se esqueceram desse tempo", observa. Mas, por outro lado, abriu frentes de conflitualidade interna quando procedeu a alterações orgânicas, mal recebidas pelos profissionais. "Os problemas não se resolvem com palmadinhas nas costas", justificou. Por outro lado, o presidente distrital da Ordem dos Médicos, Ulisses Brito, comenta: "Esse é o estilo do Dr. Pedro Nunes". O dirigente associativo - médico do HF - manifesta opinião diferente, apelando ao consenso e diálogo: "Pelo contrário, eu acho que não se apanham moscas com vinagre".

Além de ter obrigado os médicos a picar ponto, Pedro Nunes impôs regras de funcionamento dos serviços que foram muito mal recebidas, a ponto de ter sido feita uma declaração pública de que tinha rebentado uma "crise institucional" nas relações entre as chefias e a administração. Na última reunião de directores de serviço, o responsável pela Gastroenterologia, Horácio Guerreiro - um dos principais apoiantes do ainda administrador - retirou-lhe a confiança: "O Conselho de Administração esgotou", disse, sugerindo que o melhor seria dar o lugar a outro.

www.publico.pt, 20151207
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